quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Raiz derrete?

Aquela cidade é cinza, eu juro. Para quem você está jurando? Aquela cidade, ela é cinza. O mar, ele faz parecer que ela é hidratada e o sol faz parecer que ela pode vir a derreter, virar água, mais água, um porre de água salgada em meio a confetes e serpentinas, mas não. A minha pele é parede e concreto e eu talvez viaje pra São Paulo. Eu juro, se você olhar para os morros e eles parecerem sépia, um cartã-postal, você vai sentir um frio na barriga que se parece um pouco com angustia. A angústia provavelmente vai fazer você andar pelas ruas de braços cruzados e, aos poucos, o frio da barriga se transforma em quente-bom no peito. Você volta a olhar os morros e eles estão lá, um cartão-postal. Continua a andar, então, e vai ver, eu juro, você está passeando por uma foto antiga. O passado é confortável: Meias de lã, chocolate quente, edredon. Nesta cidade faz um frio de rachar os ossos, ossos brancos. Você jura? Para quem? Por quem? Eu juro pelo silêncio que eu nem tenho mais ouvido e que as vezes desconfio se ele ainda está lá, fazendo barulho. Eu juro pelos dentes mordendo o lábio de baixo sempre a partir de uma determinada hora do dia. Juro pelos óculos embaçados, pela saudade do cheiro no cabelo. Eu juro pela saudade do cheiro no cabelo que eu nem tenho mais sentido e que as vezes desconfio se ela ainda está lá, andando de braços cruzados. Não. Minha saudade do cheiro no cabelo andava de mãos espalmadas, tateando o lençol-cara-amarrotada, procurando a caneca-bom-dia e sorrindo ainda de olhos-fechados-janela-aberta. Aquela cidade-folha-de-papel está na palma da minha mão e a qualquer momento eu posso amassá-la e jogar na lixeira, uns poucos rabiscos que nela eu fiz. Rabiscos de caneta bic nos prédios baixos, um grafiteiro com uma blusa com um balão colorido desenhado no centro. Você jura? Atlântida é hoje, o calor faz derreter as plantas da janela. Um líquido verde começa a gotejar no parapeito do vizinho, no vaso-só, terra marom e raiz. Raiz derrete? É inverno e, no entanto, nunca houve verão tão rigoroso. Os tacos do apartamento começam a perder a solidez, ferrugem com madeira com farpas, os copos de vidro se desfazem, vidro é transparente, não dá pra ver derretendo. Aquela cidade é lixa de unha. Eu não consegui guardar nenhum cheiro daquela cidade ainda. Você jura? Você consegue? Aquela cidade não tem cheiro.

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