sábado, 7 de janeiro de 2012

Palavras eslavas

Havia qualquer coisa de velho naquela relação, qualquer coisa de duas pessoas fazendo tricô lado a lado numa cadeira de balanço, qualquer coisa de sonho já amassado, de vida perdida, de inocência pisada. Mesmo antes de alguma coisa brotar, de alguma coisa que poderia dar ao encontro um nome curto e capaz, mesmo antes tudo já era viciado, pobre. Viciadinho. Pobrezinho, enjoadinho, inho. Inhozinho. É que pra eu conseguir o encanto, agora, é preciso uma serie de coisas acontecerem, não juntas, não em ordem, não todas elas, mas há uma lista completa a se preencher, uma lista de nomes que eu nem sei quais são. Lista de coisas escritas em uma língua que eu não conheço, uma língua estrangeira do leste europeu. Minha lista é de nomes romenos, talvez, ou búlgaros. Língua travada e dura, a eslava. Budapeste é amarela ou cinza, afinal? Hoje o meu corpo está quente e eu sinto dor quando encosto nas coisas. Nestes dias eu sei que o contato da minha pele com qualquer outro corpo provoca incômodo, o sangue esquenta prontamente, os músculos iridescem. E qualquer tentativa é difícil de ser levada a cabo. Eu repito algumas das palavras que você gosta. Tentativa. Incômodo. Pele. Palavras chatas, tchecas. Amanha quando eu acordar de um sono que não sei como vai ser, talvez eu acorde com tentativa, incômodo e pele menos pedregosas, uma outra nota, um outro tom.

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